Quanto tempo leva para vender um apartamento em Florianópolis (e o que faz um imóvel encalhar)

O tempo médio para vender um imóvel no Brasil é de cerca de 16 meses, segundo a ABRAINC. Nos Estados Unidos, esse número fica entre 55 e 75 dias. Na França, 93. Na Escócia, 39. Quase um ano e meio contra dois meses. Não é característica do brasileiro demorar mais para escolher onde morar. É característica do jeito como a maior parte dos imóveis é colocada à venda por aqui.


Antes de usar esse número como régua, uma ressalva honesta. Ele é média nacional e mistura realidades completamente diferentes, de apartamento popular em cidade pequena a cobertura em capital. Não existe estatística pública confiável de tempo médio de venda por bairro em Florianópolis. Quem apresenta esse dado com precisão de casa decimal está estimando, e é bom desconfiar.


O que dá para observar depois de quinze anos trabalhando dentro do mercado da ilha é um padrão que se repete com uma consistência incômoda. Imóvel que entra bem precificado e bem trabalhado costuma receber suas melhores propostas nos primeiros dois ou três meses. Imóvel que entra errado fica parado, sofre reduções sucessivas de preço, ganha fama de encalhado e acaba vendendo abaixo do que teria conseguido se tivesse entrado certo desde o primeiro dia.


A diferença entre esses dois destinos quase nunca é o mercado. É o que foi decidido antes do anúncio ir ao ar.


A janela de ouro dos primeiros trinta dias

Quando um imóvel entra nos portais, ele recebe a maior explosão de visibilidade da vida dele. Aparece como novidade, é empurrado para todo mundo que tem busca salva compatível, cai no radar dos corretores que estão com clientes ativos procurando exatamente aquele perfil. Essa é a melhor audiência que aquele imóvel vai ter, e ela acontece uma vez só.


Se o preço estiver errado nesse momento, essa audiência inteira olha, compara com o que existe no bairro e passa direto. E não volta. O comprador que viu seu apartamento por 950 mil e achou caro não vai ser notificado quando você baixar para 850 mil três meses depois. Ele já comprou outro.


É por isso que a estratégia de "vamos colocar um preço mais alto e ver o que acontece, dá pra baixar depois" é uma das mais caras que existem. Ela queima a única janela de atenção máxima que o imóvel tinha, e o que sobra depois é um anúncio velho, com histórico de redução, que sinaliza para o comprador exatamente uma coisa. Aqui tem espaço para negociar bastante, e o dono está apertado.


O apego emocional custa dinheiro

Esse é o ponto mais delicado de todos, e o mais comum.

O proprietário morou naquele apartamento. Criou os filhos ali, reformou a cozinha do jeito que sempre quis, escolheu cada porcelanato, plantou aquela árvore na área comum. Tudo isso tem valor imenso para ele e valor zero para o mercado.


O comprador não está comprando a sua história. Está comparando o seu apartamento com outros seis do mesmo perfil no mesmo bairro, abertos em abas paralelas do navegador, num domingo à noite. Ele olha metragem, número de quartos, vaga, andar, condomínio, estado de conservação e preço. A reforma que custou oitenta mil e foi feita com muito carinho pode ter agregado quarenta mil de valor de mercado, ou pode não ter agregado nada se o gosto for muito pessoal.


Isso não é insensibilidade do mercado. É o funcionamento dele. E o corretor que concorda com o preço emocional do proprietário só para conseguir a captação não está sendo gentil. Está condenando aquele imóvel a passar um ano e meio parado antes de aceitar a realidade, com o proprietário perdendo dinheiro em condomínio, IPTU e oportunidade o tempo todo.


Achar que sabe o preço sem saber o preço

A referência que a maioria dos proprietários usa está errada por dois motivos, e vale entender os dois.

O primeiro é que anúncio de portal não é preço de venda. É preço pedido. O apartamento do vizinho que está anunciado por 900 mil pode acabar vendendo por 800. A diferença entre o que se pede e o que se fecha em Florianópolis costuma ser relevante, e essa informação não está em nenhum portal. Ela está com quem fecha negócio no bairro e vê o valor que efetivamente foi para a escritura.


O segundo é que comparar metro quadrado sem ajustar por atributo é comparar coisas diferentes. O apartamento do vizinho tem a mesma metragem, mas tem vaga dupla, é de frente, pega sol da manhã e fica no décimo andar. O seu tem vaga simples, é de fundos, face sul e fica no segundo. São dois produtos distintos que por acaso têm o mesmo número de metros quadrados. Precificar um pelo outro é o erro mais frequente do mercado.


Os defeitos que o proprietário minimiza e o comprador não perdoa

Todo imóvel tem pontos negativos. O problema não é ter. É achar que o comprador não vai reparar. Em Florianópolis, alguns pesam muito mais do que os proprietários imaginam.


Face sul, num lugar com a umidade que a ilha tem, significa pouco sol direto o ano todo. Isso não é detalhe estético. É mofo em armário, roupa que demora para secar, sensação térmica pior no inverno. O comprador que já morou num apartamento assim identifica em trinta segundos de visita e some.


Apartamento sem vaga em bairro central corta uma fatia enorme da demanda. O comprador que tem oitocentos mil para gastar quase sempre tem carro, e não vai aceitar disputar vaga na rua todo dia. O imóvel não fica sem valor, mas o universo de gente disposta a comprar encolhe drasticamente, e menos concorrência entre compradores significa preço menor.


Condomínio alto mata mais negócio do que se imagina, e por um motivo matemático que pouca gente explica. O comprador raciocina em custo mensal total. Se ele consegue comprometer cinco mil reais por mês entre parcela e condomínio, e o condomínio do seu prédio é de mil e quinhentos, sobram três mil e quinhentos de parcela. Isso reduz diretamente o valor que o banco vai financiar, e portanto o valor que ele consegue te pagar. Dois apartamentos idênticos com condomínios diferentes valem valores diferentes, e a diferença costuma ser maior que a soma das taxas.


Prédio antigo com fachada precisando de reforma, sem fundo de reserva, é uma bomba-relógio que o comprador atento identifica pedindo a ata da última assembleia. Barulho de avenida, térreo com histórico de umidade, ausência de elevador acima do terceiro andar, todos entram na mesma categoria. Não são impedimentos. São fatores de preço, e precisam ser precificados na entrada, não descobertos na quinta visita frustrada.


A conta que quase ninguém faz

Cada mês de imóvel parado tem custo. Condomínio, IPTU, energia mínima, manutenção, e o dinheiro que ficou preso ali sem render nada.

Um apartamento de oitocentos mil, com condomínio de mil reais e IPTU rateado, custa facilmente mais de mil e trezentos reais por mês para ficar parado. Em dezesseis meses, são mais de vinte mil reais que evaporaram, sem contar o custo de oportunidade do capital.


Muita gente resiste em baixar cinquenta mil no preço de entrada e acaba perdendo esse valor mesmo assim, só que dividido em parcelas mensais invisíveis, e ainda vendendo mais barato no final.


Agora a parte contraintuitiva

O reflexo natural de quem quer vender rápido é espalhar. Coloca em cinco, oito, dez imobiliárias, porque quanto mais gente anunciando, mais chance de aparecer comprador. Faz sentido na lógica, e é exatamente o oposto do que acontece na prática.


Quando um imóvel está em dez imobiliárias, ele aparece dez vezes nos portais. O comprador que está pesquisando sério, e todo comprador de oitocentos mil pesquisa sério, vê o mesmo apartamento repetido em anúncios diferentes. Às vezes com preços diferentes, porque uma imobiliária ainda não atualizou a última redução. Às vezes com fotos piores, tiradas às pressas por quem nunca entrou no imóvel.


O que ele conclui, e conclui em segundos, é que aquele imóvel está encalhado. Que o dono está desesperado. Que dá para pechinchar pesado. O anúncio espalhado não comunica disponibilidade. Comunica dificuldade.


E tem um problema mais grave, que é de incentivo.


Quando dez profissionais estão competindo pelo mesmo imóvel, nenhum deles investe nele. Ninguém paga fotografia profissional, ninguém produz vídeo, ninguém roda tráfego pago, ninguém dedica tempo a montar uma estratégia, porque qualquer investimento pode ser capturado por um concorrente que fizer a visita antes. Todo mundo faz o mínimo. O imóvel recebe o esforço médio de dez pessoas fazendo o mínimo, que é bem menor que o esforço de uma pessoa fazendo o trabalho inteiro.


Pior. O incentivo de cada corretor se inverte. Numa corrida para ver quem fecha primeiro, o caminho mais rápido não é defender o preço com o comprador. É pressionar o proprietário a baixar. Em vez de dez pessoas trabalhando para você, você acaba com dez pessoas trabalhando contra o seu preço.


E o comprador, que na maioria das vezes está sendo abordado por três ou quatro corretores diferentes sobre o mesmo apartamento, perde a confiança na negociação inteira.


O que é anunciar bem, de verdade

O trabalho que faz um imóvel vender rápido e pelo preço certo acontece quase todo antes do anúncio ir ao ar, e continua depois que o lead responde.


Começa com precificação ancorada em negócios efetivamente fechados no bairro, não em anúncios de portal, e ajustada pelos atributos reais do imóvel. Passa por fotografia profissional, com o imóvel preparado, e pela ordem certa das fotos, porque a primeira imagem é o que decide se alguém clica ou rola a tela. A descrição precisa ser escrita para o comprador, respondendo o que ele realmente quer saber, e não empilhando adjetivos.


Antes de ir para o portal, um profissional que trabalha o bairro há anos cruza o imóvel com a própria carteira. Cliente que visitou algo parecido nos últimos meses, cliente que descreveu exatamente aquele perfil, cliente que ficou perto de fechar em outro apartamento e desistiu. Muita venda boa acontece aí, antes de o imóvel virar público.


Quando o lead chega, o tempo de resposta é decisivo. Comprador que manda mensagem num domingo à noite está com o interesse no pico. Se a resposta vem na terça de manhã, ele já visitou outros dois.


Aí vem a qualificação, que é onde a maioria erra. Levar dez curiosos para visitar não é sinal de imóvel bem divulgado, é sinal de filtro inexistente, e cada visita inútil desgasta o proprietário e o imóvel. Entender antes se a pessoa tem crédito aprovado, qual o prazo dela, se o valor cabe no bolso, isso transforma cinco visitas em uma proposta, em vez de vinte visitas em nada.


Depois da visita, o proprietário precisa receber retorno estruturado. O que o comprador achou, o que travou, o que se repete entre um visitante e outro. Três pessoas seguidas reclamarem da mesma coisa é informação valiosíssima, e ela se perde completamente quando o imóvel está espalhado e ninguém se responsabiliza pelo retorno.


E na negociação, alguém precisa defender o seu preço com argumento técnico, com comparativo de mercado na mão, sabendo até onde dá para ceder e onde não faz sentido ceder. Depois disso ainda tem documentação, financiamento, cartório, e uma quantidade de coisas que podem derrubar um negócio já fechado.


Um imóvel que entra no mercado com preço certo, fotos boas e uma pessoa conduzindo o processo inteiro costuma receber suas melhores propostas nas primeiras semanas. Um imóvel espalhado em dez imobiliárias, com preços divergentes e ninguém responsável, recebe visita de curioso e proposta de oportunista. Os dois estão à venda. Só um está sendo vendido.

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